Posted on 04-09-2009
Filed Under (blog) by Luís F. Alves

Escrita automática é daquelas coisas de que sempre ouvi falar, mas que nunca me pareceu particularmente útil. Supostamente, consiste em começar a escrever o que nos vier à cabeça, por maior disparate que seja, e não parar até passar um período pré-determinado.

O que eu sempre achei foi que isto era demasiado propício a disparates, e consequentemente, quase inútil.

Mas mudei completamente de ideia.

Há uns tempos, decidi começar a fazer 10 minutos diários de escrita automática. Estava numa fase em que me sentia particularmente encravado em termos criativos, e achei que seria uma boa maneira de desencravar, e de me forçar a escrever alguma coisa todos os dias. Não estava esperançado que saísse nada de jeito, mas também não era esse o objectivo.

Logo nos primeiros dias, fui surpreendido.

Dei comigo a escrever, não disparates disconexos, mas cenas coerentes, ainda que não inteiras. Não tinham história para as acompanhar, é certo, mas eram suficientemente bem construídas para SUGERIREM uma história à sua volta. De tal maneira que em vez de deitar fora esses textos, os arquivei na minha pasta de ideias.

Melhor ainda: o entusiasmo de conseguir algo de coerente com o mínimo esforço mental (ou mesmo nenhum, uma vez que não me dava ao trabalho de pensar no que estava a escrever enquanto escrevia; “escrita AUTOMÁTICA”, afinal de contas), normalmente fazia com que me lançasse a outras tarefas de escrita logo de seguida. Ou seja, os 10 minutos serviam como aquecimento, por assim dizer.

Portanto, logo aí o método agradou-me. Mas depois melhorou.

Como já disse algures neste blog, eu tendo a planificar o meu dia em post-its. Consequentemente, sei mais ou menos sobre o que vou escrever umas boas horas antes de começar a escrita.

Ora, uma vez que eu sabia o que ia escrever mais tarde, dei comigo a escrever sobre isso no período de escrita automática! Ou seja, eu tinha o assunto na cabeça, e era isso que saía naqueles 10 minutos! E mais: descobri que o facto de escrever sem filtros facilita a resolução de problemas de estrutura narrativa. Uma vez que a ideia é escrever rapidamente, e sem grandes considerações, dou comigo a escrever ponto por ponto o que acontece em determinada história, incluindo os pontos com os quais eu estava a ter dificuldade, ultrapassando assim de forma quase inconscientemente os problemas estruturais que essa história tinha previamente.

É óbvio que nem sempre isto funciona a 100%. Muitas das coisas que saem são realmente incoerentes, e essas vão para o lixo. Mas o resto é sempre bom o suficiente para, no pior dos casos, me dar algo com que trabalhar.

Portanto, o método convenceu-me, e agora uso-o todos os dias.

Não sei se ainda se pode considerar escrita automática, uma vez que sei de antemão sobre o que vou escrever. Mas seja automática ou não, gosto. Muito.

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