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Não sei se quero isto…
Posted by | Posted in blog | Posted on 12-08-2009
Às vezes, assusta-me o facto de querer ser escritor. Não pela possibilidade de fracasso, mas sim pelas possíveis consequências de ser bem sucedido.
Permitam-me começar com duas pequenas histórias, para ilustrar o que quero dizer.
Nos últimos dias, tem decorrido aqui no bairro um pequeno drama humano. Que, por acaso, envolve uma das poucas pessoas daqui com quem me dou regularmente e simpatizo.
Antes que perguntem “porra, o bairro é assim tão mau?”, não, não é, eu é que sou pouco dado. Mas é mau o suficiente para eu ter montes de histórias para contar, de tal maneira que tenho uma ideia para um livro que as contaria a todas. Devidamente ficcionadas, claro.
O que me traz à questão central. Porque enquanto observava de longe o que se ia passando com a tal pessoa (e não, não estava a dar uma de voyeur, o que quero dizer é que ia-me mantendo actualizado sem estar necessariamente presente), uma das coisas que me passava sempre pela cabeça era “bom, se um dia escrever o tal livro, já tenho um final”.
E nesses momentos, sinceramente, meti-me um bocado de nojo.
Alguém que eu conheço está a passar mal, e aquilo vem-me à cabeça.
Não é um lado meu que me agrade.
Ok, história dois:
Quem lê aqui o blog já sabe que eu sou fanático pelo universo Doctor Who, e como tal já andava há que tempos a tentar deitar a mão ao livro The Writer’s Tale, que é uma crónica de um ano na vida do showrunner da série, o Sr. Russell T. Davies, contada através de uma troca constante de emails com o jornalista de serviço da série.
O processo criativo dele é bastante detalhado no livro. Parte desse processo, a parte que ele absolutamente ODEIA, especialmente por não se poder controlar, é a procrastinação constante, a tendência incontrolável dele de deixar as coisas para a data mais tardia possível. E o que ele mais detesta nisso não é necessariamente a pressão que isso lhe coloca nos ombros, mas o tempo que isso rouba à vida dele. O facto de desperdiçar involuntariamente partes enormes do seu dia a dia, para depois ter que sacrificar a sua vida social e familiar (ele menciona não ver as irmãs há quase um ano), é algo que o atormenta.
Isto vem somar-se, claro, a todas as histórias que já todos ouvimos sobre escritores torturados. Claro que há quem defenda que não é preciso sacrificar nada mais que uma hora por dia para ser escritor, mas o facto é que esses parecem estar em minoria. E mesmo que não estivessem, a situação do RTD é pelo menos uma forte possibilidade para quem quer ser escritor.
Como eu.
Já estão a perceber onde quero chegar, certo?
Tudo isto me assusta imenso. Eu quero ser escritor, quero muito. Mas assusta-me ter que sacrificar a minha Vida, assusta-me ver-me dominado pelo lado mais interesseiro e parasítico da personalidade de escritor.
Isto pode ser parvo, mas atormenta-me um bocado.
Enfim. Suponho que o que interessa é que os meus pensamentos mais humanos sejam os que me dominam, e não os outros. E que eu saiba dar prioridade à minha Vida quando necessário. Que procure equilíbrio em todos os aspectos da vida de escritor, basicamente.
Resta saber se vou conseguir.
Ou posso nunca conseguir sequer ser escritor, profissional ou não, e estou a preocupar-me para nada…
Não sei. Acho que ainda assim, prefiro a preocupação…


