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Vladimir Nabokov e estruturas narrativas para BD
Posted by | Posted in blog | Posted on 17-08-2009
Há quem diga que, no que diz respeito a ideias, se é para roubar, mais vale roubar aos melhores.
Eu quero roubar a Vladimir Nabokov.
Admito, no entanto, que não li praticamente nada do senhor. Só li um livro, o Fogo Pálido, e para ser sincero não tenho sequer a certeza de o ter percebido. Ou pelo menos, de ter percebido a história. Acho que percebi a intenção dele, e acho que a intenção dele era simplesmente fazer um jogo narrativo.
Um aviso: eu vou discutir vários pormenores sobre duas obras do Sr. Nabokov. Como tal, haverão SPOILERS, pelo menos do meu ponto de vista. Não continuem a leitura se não estão preparados para lidar com isso, ok?
Portanto. Fogo Pálido. Ok.
O livro Fogo Pálido é-nos apresentado como sendo a última obra do poeta John Shade, recentemente falecido, com prefácio e extensas anotações (a praticamente todos os 999 versos, se bem me lembro) do seu amigo Charles Kinbote. Isto à superficie. Porque quando começamos a olhar com atenção para o material, vemos que muitas das anotações, por exemplo, têm pouco ou nada a ver com o verso que comentam ou com o escritor deles, servindo antes como desculpa para Kinbote falar de si, da sua vida, ou até de gente que aparentemente não tem nada a ver com nada.
Ao longo da leitura atenta de todo o livro, torna-se mais que óbvio que a origem do poema, a morte do seu autor, a sua relação com Kinbote, e/ou a própria EXISTÊNCIA de Kinbote, não são o que parecem originalmente. A história é bem mais complexa do que nos é apresentado de inicio.
Qual é a VERDADEIRA história?
Não sei. Não consegui perceber. Cheguei a algumas poucas conclusões, mas não consegui relacionar tudo. O que não me faz sentir particularmente burro, uma vez que há montes de teorias sobre o livro, mas nenhuma definitiva, ou sequer mais provável.
Tudo isto é um jogo narrativo interessante, mas em última análise, vale por si mesmo. Não conta uma história, sugere-a. O que para os meus propósitos, seria inútil, portanto eu nunca “roubaria” isto tal e qual como está.
Mas enquanto estrutura narrativa… É interessante. E gostaria de um dia aplicar algo semelhante em banda desenhada. Ter uma narrativa, a história supostamente real, como peça principal de uma obra, mas enquadrada num contexto que a condicione de forma a dar-lhe uma leitura bastante diferente. Não quero ir tão longe como Nabokov, e impossibilitar conclusões definitivas. Penso que a história só tem a ganhar se for claro qual é, efectivamente, a história REAL Ou pelo menos limitar a dúvida a duas ou três hipóteses. Mas o jogo narrativo, e a estrutura, parecem-me passiveis de serem aplicados com resultados interessantes.
Há coisas semelhantes já feitas, claro. Este tipo de jogo narrativo é o género de coisa que o Alan Moore, por exemplo, faz bem. E nas obras dele temos dois exemplos de algo parecido. No Watchmen
, a conclusão da história, e acima de tudo o implícito momento seguinte a essa conclusão, parecem relativamente certos. Apesar disso, escondido no texto suplementar de um dos capítulos anteriores, está uma frase solta que coloca em causa as nossas conclusões sobre esse final. Frase em que pouca gente parece ter reparado, aliás, e o meu obrigado ao Jorge Amorim por me ter alertado para ela.
No From Hell, também há algo semelhante, uma cena perto do final da história que parece não ter nexo, não fazer sentido com o que sabemos ter-se passado anteriormente. Até que nas anotações, Moore, na sua própria voz, dá-nos uma pista para algo que altera não só a nossa percepção de parte da história, contextualizando o que aparentemente não tinha nexo, como também sugere que todas as deduções e acções dos personagens se basearam em pressupostos errados.
No entanto, estes dois exemplos concentram-se em momentos específicos da história. O que eu pretenderia seria algo que afectasse a história de forma mais completa. Como o farei? Em que história o farei?
Nem imagino. Nem sei se algum dia vou conseguir. Sei que gostava, e sei que vou manter esta “ferramenta” a postos, à espera da história certa.
E não é esta a única “ferramenta” narrativa que quero roubar a Nabokov para aplicar em banda desenhada. Há uma outra estrutura que me interessa.
Mas este post já vai longo. Deixemos isso para outro dia, pode ser?



E exemplos em cinema?
Estava a ler e lembrei-me de dois filmes em que a estrutura acaba por ser bastante interessante.
Não sei se já viste, mas aqui vão: Magnolia e Donnie Darko.
Pessoalmente acho o Magnolia o melhor filme que já tive a oportunidade de ver. Se o Magnolia é perceptivel, se olharmos para a narrativa do ponto certo e a começarmos a desconstruir, Donnie Darko é uma coisa bem mais ao estilo daquilo que referes no artigo. As conclusões não são óbvias, sendo no entanto teorias. Tal como as anotações, no Donnie Darko existe outra coisa que serve de fio condutor do filme.
Fernando Campos
Já vi os dois filmes, e gosto bastante deles. Embora confesse que já não os revejo há muito tempo.
Ainda assim, não sei se as estruturas serão assim tão semelhantes ás de que falo. No caso do Magnólia, a história era toda bastante linear, com a excepção de ter múltiplos pontos de vista paralelos, certo? Mas começava num ponto, terminava no outro, e ia tudo bastante direitinho até ao final…
E o Donnie Darko também. Tinha aquela bifurcação temporal no final, é certo, mas tirando isso e as premonições, era também bastante linear (ou tão linear quanto uma história de universos paralelos e viagens no tempo pode ser).
Pelo menos, é assim que me lembro deles. Mas como disse, não os vejo há que tempos, posso estar enganado…