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Memórias aos quadradinhos – O Cavaleiro das Trevas
Posted by | Posted in bd/comics, blog | Posted on 04-09-2010
“Que raio é isto?”, pensei eu ao ver aquele objecto estranho.
Naquele sítio da papelaria, num daqueles expositores rotativos para revistas, o que estava normalmente à venda eram livros de banda desenhada importados do Brasil. Tamanho pequeno, cerca de 80 páginas. Apesar de alguma exposição a outros formatos, para a minha mente de 11 ou 12 anos (não me lembro se estava no primeiro ou segundo ano do ciclo preparatório) banda desenhada era aquele formato, e mais nada.
Por isso o objecto à minha frente deixou-me algo baralhado. Tinha menos páginas, era notoriamente mais fino, e mais alto. Era banda desenhada na mesma (era uma série do Batman, tinha que ser banda desenhada), mas era estranho para mim.
E estranhamente fascinante.
Ainda tinha uns minutos antes do autocarro chegar, e a paragem era na esquina em frente, não estava a mais que uns 20 segundos. Achei que valia a pena folhear o objecto, e foi o que fiz.
Não é exagero dizer que a minha vida mudou naquele momento.
O comic em questão era o primeiro número da versão brasileira do Dark Knight Returns.
Não preciso de explicar a importância dessa série no panorama da BD mundial. Primeiro porque provavelmente já sabem qual foi, e segundo (mais importante ainda) porque eu não fazia ideia nenhuma do impacto geral daquele projecto. Soube, no entanto, o impacto que teve em mim.
Não só o formato, mas a densidade da história, a maneira fora do comum como estava contada, a arte… Na altura eu só estava habituado a BD da Marvel relativamente banal, daquela fase do final dos anos 70/inicio dos anos 80 em que pouco ou nada se passava de interessante. Eu gostava, mas na sua maioria, não era material exactamente complexo.
Mas assim que comecei a ler o Cavaleiro das Trevas, as coisas mudaram. É dos poucos pontos da minha vida em que consigo apontar exactamente quando e porquê os meus gostos mudaram.
Decidi que haveria de comprar aquele livrinho, e foi o que fiz poucos dias depois. Aquele e todos os números seguintes (ainda hoje os tenho, embora em versão encadernada; o meu tio tinha uma tipografia, e já na altura eu adorava livros em capa dura, pelo que lhe pedi para fazer um a partir dos números individuais).
Foi a primeira colecção que fiz, fosse do que fosse.
Naquele momento, no entanto, não tinha dinheiro comigo, pelo que abusei da paciência da dona da papelaria, e não resisti a ficar mais uns minutos a folhear o livro.
Posso estar enganado, mas acho que foi a primeira vez na minha vida que perdi um autocarro.







